AS CONTRIBUIÇÕES DE C. G. JUNG PARA A COMPREENSÃO DOS SONHOS
Cybele Maria Rabelo Ramalho
“Os sonhos são natureza pura; eles nos mostram a verdade natural,
sem maquiagem, e por isto se prestam nada mais do que a dar-nos de volta uma
atitude que está de acordo com a nossa natureza humana básica, quando nossa
consciência se desviou demais de seus fundamentos e chegou a um impasse” (JUNG,
1999, p.78).
Após as
pesquisas desenvolvidas sobre sonhos por Freud, foi Carl Gustav Jung
(1875-1961) quem mais contribuiu para a análise de sonhos. Tal como Freud,
considerava-os como uma ponte entre o consciente e o inconsciente, um meio de
interpretar o simbolismo do inconsciente. Assim, para Jung, o sonho é uma
auto-representação espontânea, sob forma simbólica, da situação real do
inconsciente. Enquanto área de encontro entre a dimensão consciente e
inconsciente da psique, o sonho participa de ambas, unindo-as em seus símbolos.
Ele enfatiza a importância de se desvendar a dimensão simbólica do ser humano
através dos sonhos. Estes, emergem à mente consciente completamente “sem
sentido”, sob a forma de imagem, metáfora ou símbolo, numa linguagem intimamente
ligada á arte, mas na realidade são confrontos pessoais subjetivos (VON FRANZ,
2007).
Jung discordou de Freud no que se refere aos
sonhos como apenas desejos sexuais reprimidos, concluindo que essa
interpretação era muito restritiva. Para ele, os sonhos traziam mensagens do
inconsciente em relação aos momentos já vividos, mas também do presente e do
futuro. Assim, ao contrário de Freud, que dizia que os sonhos escondiam a
verdade e era um disfarce para o desejo reprimido (FREUD, 1945), Jung acreditava
que o sonho tendia a mostrar a verdade que a consciência ainda não havia
percebido. Segundo Nise da Silveira (2000, p. 91) para ele, “o sonho é aquilo
que ele é, inteiramente e unicamente aquilo que é; não uma fachada, não é algo
pré-arranjado, um disfarce qualquer, mas uma construção completamente
realizada”.
No seu
entendimento, todas as figuras do sonho são aspectos personificados da
personalidade do sonhador, representam fatores autônomos da própria
personalidade. Ele não aceitou que o sonho tivesse uma significação diferente
da sua apresentação evidente, de modo que começou a estudar a forma e o
conteúdo dos sonhos, considerando-os um fenômeno natural e normal, que “não
significa outra coisa além do que existe dentro dele”. Segundo o próprio Jung,
“a confusão nasce do fato de serem simbólicos os seus conteúdos e, portanto,
oferecerem mais de uma explicação. Os símbolos apontam direções diferentes
daquelas que percebemos com a nossa mente consciente” (JUNG, 1964, p. 90).
Assim, Jung
discordava do método puro da “livre associação” desenvolvido por Freud (1945),
no trabalho com os sonhos. Para ele era importante a coleta do contexto
subjetivo do sonho através de associações, mas considerava a técnica freudiana
da associação livre muito linear, conduzindo em geral aos complexos do sujeito.
Assim, propõe que as associações se agrupem em torno da imagem do sonho,
permanecendo próximas desta e sempre retornando a ela.
Julgava
essencial apreciar o sonho em sua dimensão criativa, a qual decorre do ponto de
vista final-construtivo, que revela uma tensão psíquica dirigida a um fim
futuro, teleológico, ou a uma significação ainda por aparecer. Este ponto de
vista se opõe ao enfoque causal-redutivo freudiano. Segundo ele (JUNG, 1964, p.
38): “As imagens e ideias contidas no sonho não podem ser explicadas apenas em
termos de memória; expressam pensamentos novos, que ainda não chegaram ao
limiar da consciência”.
O
conceito mais marcante da teoria junguiana é a ideia de inconsciente coletivo, que consiste no conjunto de símbolos e
arquétipos comuns a quase todos os povos, que estariam gravados numa espécie de
“memória coletiva”, presente nos
níveis mais profundos de nosso inconsciente. Assim, muitos sonhos apresentam
imagens e associações semelhantes aos ritos primitivos e aos mitos. Jung
observou que, o que Freud chamou apenas de “resíduos arcaicos” do inconsciente,
sem dar muito valor, são elementos psíquicos que sobrevivem na mente humana, a
tempos imemoriais, têm significação e uma função valiosa. São associações
históricas e primitivas, que estabelecem um elo entre o mundo racional da
consciência e o mundo do instinto. Enfim, representam algo muito além da
experiência pessoal do sonhador.
Desta
forma, ele afirmou que, através dos sonhos, se revelavam as imagens
arquetípicas. Então os arquétipos, ou “imagens primordiais”, são definidos por
ele como “uma tendência instintiva para formar representações variadas de um
motivo, sem perder a sua configuração original” (JUNG, 1964, p. 67). Estas
reações e impulsos fundamentam-se num sistema instintivo pré-formado e sempre
ativo, característico do homem. “Formas de pensamento, gestos de compreensão
universal e inúmeras atitudes seguem um esquema estabelecido, muito antes do
ser humano ter desenvolvido uma consciência reflexiva” (Ibidem, p. 76).
Assim, esses “sonhos de arquétipo ou arquetípicos” seriam os mais
importantes para Jung, pois sua mensagem e simbologia não correspondiam somente
à vida daquele cidadão, mas à humanidade em geral. Para ele, “os arquétipos
informes alcançam uma forma, na medida em que os vivenciamos em nossas vidas
externas e em nossos sonhos” (ROBERTSON,
1992, p. 50).
Segundo
Hall (1987) a atividade das camadas mais profundas da psique é claramente
vivenciada em sonhos, que é uma experiência humana universal e pode irromper de
forma excessiva também nas crises emocionais agudas, por exemplo. Assim, o
sonho pode compensar distorções temporárias na estrutura do ego, dirigindo o
indivíduo a um entendimento mais abrangente das suas atitudes e ações,
complementando a visão unilateral que o ego tem da realidade. Nos sonhos
aparecem imagens ou figuras que personificam complexos, anima/ animus, persona
e sombra (positivas ou negativas, pessoais ou coletivas), assim como várias
formas e papéis do ego. Mas, também expressam imagens da nossa personalidade
global, do centro arquetípico da psique, que Carl Jung denominou de Self. Tentarei descrever estes conceitos
junguianos acima citados a seguir, para facilitar a compreensão do leitor.
Os
complexos são “os motores da psique, como diferentes núcleos que impulsionam e
vitalizam a psique, são os seus centros de energia” (VON FRANZ, 2007, p.38).
Temos como exemplo um complexo materno ou paterno, sexual, etc. Para Jung, em
geral os complexos são os personagens dos sonhos, eles aparecem de forma
personificada, quando estão inibidos pela consciência. Eles são o ponto de
partida para nossas fantasias. Para Hall (1994, p. 25), um complexo é
“um grupo de imagens inter-relacionadas que se baseiam num
núcleo arquetípico e tendem a apresentar uma tonalidade emocional comum.
Qualquer imagem associada a um complexo pode levar a uma liberação de emoções.
Por exemplo, uma mulher com um complexo paterno negativo, pode descobrir que
esses sentimentos negativos irrompem em sua consciência sempre que ela interage
com qualquer homem que evoque uma imagem associada com o complexo”.
Segundo Hall (1987), a maior parte do
uso clínico dos sonhos tem a finalidade de expressar complexos. Estes devem ser
identificados através de técnicas expressivas e imaginativas que facilitem a
sua interpretação, pois “o trabalho com sonhos é talvez a abordagem mais direta
e natural para se alterar complexos” (HALL, 1987, p. 36). No entanto, o
terapeuta deve estar consciente de que nem tudo está ao alcance do ego.
A sombra por
sua vez, é o arquétipo que se opõe à persona e aparece muito em sonhos. Aparece
representada por pessoas do mesmo sexo do sonhador, que apresentam qualidades e
atitudes inferiores ou opostas à sua persona, ou seja, àquilo que ele aceita
como próprio. “Pode personificar nosso lado inferior, nosso inimigo, mas também
pode ser apenas nosso outro lado” (VON FRANZ, 2007, p. 39). Os traços obscuros
do nosso caráter possuem uma natureza emocional, e certa autonomia, portanto,
para aceitá-la precisamos fazer um esforço moral. A sombra costuma ser vista
com mais frequência projetada em outra pessoa, dissociada do ego. Pode-se admirar
esta pessoa (projeção da sombra positiva) ou detestá-la (projeção da sombra
negativa). Segundo Jung (2000, p. 8), “é bem possível que o indivíduo reconheça
o aspecto relativamente mau de sua natureza, mas defrontar-se com o
absolutamente mal representa uma experiência ao mesmo tempo rara e
perturbadora”.
A anima é o
lado feminino inconsciente do homem e o animus o masculino inconsciente da
mulher. São representados nos sonhos dos homens e das mulheres por figuras
femininas e masculinas, respectivamente. Como nos interessa neste caso o
desenvolvimento do feminino, o animus pode aparecer em formas ou representações
positiva (como masculinidade viril, força, coragem, planejamento, intelecto e
espiritualidade), ou negativa (um estuprador, violento, mordaz, enganador, um
demônio, etc.). Segundo Hall (1994, p. 28), quando “a anima/animus funciona de
maneira positiva, no interior da personalidade ela aparece em sonhos e
fantasias como uma espécie de guia da alma, um psicopompo, que leva o pequeno eu na direção do Si-mesmo (Self)”.
Para Jung
(2000, p. 12), o animus, por exemplo, designa a razão ou o espírito,
corresponde ao Logus paterno, confere ás mulheres um caráter meditativo,
capacidade de reflexão e conhecimento, concepções filosóficas e religiosas. Uma
forte ação sugestiva promana deste arquétipo, fascinando a consciência, podendo
deixá-la prisioneira.
“Anima e animus se constituem parte de um domínio especial
da natureza, que defende sua inviolabilidade com o máximo e obstinação. Por
isto é muito mais difícil conscientizar-se das próprias projeções do par
anima/animus, do que reconhecer nosso lado sombrio. (...) Por isto,
apresenta-se uma dúvida, e esta muito mais profunda, a de saber se não estamos
nos intrometendo no domínio próprio da natureza, tornando-nos conscientes de
coisas que no fundo, seria melhor deixá-las adormecidas”(Ibidem, p. 15).
Ainda
assim, segundo Jung há certo número de pessoas que pode compreender, no plano
moral e intelectual, as manifestações da anima/animus sem muita dificuldade.
Muitos destes conteúdos são projetados em figuras de sexo oposto, mas muitos
afloram em sonhos ou são acessados através da psicoterapia, em exercícios de
imaginação ativa. Todavia, a autonomia do inconsciente coletivo vai se
expressar nas figuras de anima e animus.
A
integração da sombra, do inconsciente pessoal, é a primeira etapa do processo
de psicoterapia analítica, etapa necessária ao conhecimento das representações
da anima/animus. O elemento seguinte a ser acessado pela consciência é, para o
homem, o arquétipo do velho sábio e, para a mulher da mãe ctônica. Somente
depois e através destes o indivíduo pode ter, enfim, acesso às manifestações do
seu Self (Ibidem).
O Self, por sua vez, é o arquétipo central
da psique, o centro do qual provém a ordem, o equilíbrio e a organização. Para
Jung, os sonhos são uma função do Self,
eles refletem sua influência e servem para compensar o estado consciente da
pessoa, ou seja, em geral questionam a nossa auto-imagem, enfatiza o que
ignoramos pelas atitudes conscientes, exercem uma função de equilíbrio. Imagens
do Self podem aparecer nos sonhos de
inúmeras formas, como por exemplo, sob a forma de mandalas, uma cidade
interior, uma praça redonda, uma flor, um círculo, um quadrado ou retângulo,
uma criança, uma deusa, etc. No dizer de Jung (1991, p.
16):
“O
Si-Mesmo aparece empiricamente em sonhos, mitos e contos de fadas, na figura de
‘personalidades superiores’ como reis, heróis, profetas, salvadores, etc., ou
na figura de símbolos de totalidade, como o círculo, o quadrilátero, a cruz...Enquanto
representa uma união de opostos, também pode manifestar-se como dualidade
unificadora, como por exemplo, no Tao, onde concorrem o yang e o yin. (...) O
Si-Mesmo aparece como um jogo de luz e sombra, ainda que seja entendido como
totalidade e, por isso, como unidade em que se unem os opostos.
Segundo
Von Franz (1997, p. 117), o símbolo do mandala aponta para “uma unidade
psíquica interior última, para o centro, para o Self. Para Jung o alvo do desenvolvimento psíquico é o Self e o mandala é o centro. É o
expoente de todos os caminhos. É o caminho para a individuação.”
Para Jung
(2000, p. 22), “o Si-Mesmo é representado na psique por uma imagem divina (imago Dei)”[1] e
a assimilação do eu pelo Self pode ser considerada uma catástrofe psíquica.
Pela natureza arcaica do inconsciente coletivo, se o eu fica sob o seu
controle, pode sofrer uma desadaptação ou perturbação emocional mais ou menos grave. Corre-se o risco de inflação do ego, ou seja,
vai sofrer de presunção, devendo para manter o equilíbrio, desenvolver a
modéstia e o foco na realidade. Saber conviver de maneira correta com as
manifestações numinosas do Self é
algo muito difícil, que vai exigir do eu a humildade. Conceder a autoridade
interna do Self como “vontade de
Deus”, obedecer às vozes do Self como
manifestações divinas, é algo que pode promover a inflação do eu e deve ser
combatido com a razão. Segundo Jung,
“Pode ser mais vantajoso
e psicologicamente mais correto considerar como a vontade de Deus, pois assim
nos colocamos em consonância com o hábito da vida psíquica ancestral,
facilitando a nossa sobrevivência. Mas, é necessário saber conviver com estes
dados absolutos que nos provém do Self,
porque a vontade do eu só consegue dominá-los parcialmente” (Ibidem, p.
25).
Jung afirmava que a verdade e a realidade que o consciente reluta em
aceitar, ou não aceita de todo, representam a situação interna do indivíduo e
são retratadas nos seus sonhos. Dessa forma, o sonho é uma expressão de um
processo psíquico inconsciente, totalmente alheio à nossa vontade e, logo,
longe do controle da consciência. Daí, o sonho não pode expressar um conteúdo
muito definido. Revelando a importância da análise dos sonhos
para a psicoterapia, Jung afirma que esta análise forma um registro das etapas
do processo de individuação, processo este responsável pelo crescimento do
indivíduo em busca contínua e eterna do seu verdadeiro Self.
Para ele,
o sonho reflete em síntese a vida do sonhador, em suas relações com o meio,
assim como na sua dinâmica interna. Representam os progressos e as regressões,
as possibilidades e as impossibilidades do metabolismo psíquico, seus conflitos
e transformações. Ele acrescenta:
“O sonho é o teatro em que o sonhador é, simultaneamente,
a cena, o ator, o ponto, o diretor, o autor e o crítico. Esta verdade tão
simples é a base deste conceito do significado onírico que designei sob o termo
de interpretação no plano do sujeito” (JUNG, apud HUMBERT, 1985, p.29):
Aproveitando que ele usou o teatro como metáfora, partimos do
conceito junguiano de que as estruturas do sonho não são diferentes das
estruturas do drama. O sonho é um drama constituído de cenas. Assim, ele insiste no ponto de que as
figuras, imagens e ações do sonho são elementos próprios da subjetividade do
sonhador. E, para ele, o conteúdo manifesto é tão importante quanto o latente.
Criticou Freud por não levar em consideração o conteúdo manifesto, por se
contentar em usar o sonho apenas como ponto de partida para associações. Pois,
como vimos anteriormente, achava que o conteúdo manifesto pode ser considerado
por aquilo que ele traz.
A cada
elemento do sonho, solicitam-se associações, examina-se de que forma se aplica
ao momento atual, ou ao seu passado, etc. Em geral, para além das tramas e
peripécias do sonho, ele contém um drama e o seu final contém aspectos que
precisam ser conscientizados, pois o sonho visa também corrigir nossas atitudes
e nos alertar (VON FRANZ, 1997). Porém, nem todos os sonhos suscitam
associações. Os arquetípicos, por exemplo, têm um significado mitológico,
recorrendo-se às analogias ou amplificações (da humanidade em geral, da
mitologia, da história, do folclore, das religiões, etc.).
[1] Deus é aqui entendido não no sentido cristão, mas no sentido de Daimon, um poder determinante que vem ao encontro do homem, de fora, tal como o poder da Providência e do destino. Segundo Jung, “neste encontro, é ao homem que se reserva a decisão ética. Ele precisa saber a respeito do que decide, e saber também o que está fazendo” ( JUNG, 2000, p. 25).
O trabalho
clássico de interpretação na análise junguiana “consiste em deixar andar as
associações, até descobrir os fatores latentes e, depois, trazê-los de volta às
formas e papéis que assumiram no conteúdo manifesto” (HUMBERT, 1985, p.29).
Pois, na visão junguiana, o sonho não é só a realização de desejos arcaicos,
mas se insere no presente do sonhador e tem um papel de “compensação”, visto
que ele é uma auto-representação espontânea e simbólica da situação atual do
inconsciente. Assim, afirma ele: “Duvido que um sonho seja algo diferente do
que realmente parece ser. O sonho é sua própria interpretação” (JUNG, 1987, p.
87).
Esta função
compensatória do sonho tende a arrancar o
psiquismo da repetição, a corrigir a situação pré-existente. Quando se
interpreta clinicamente um sonho, diz Jung que é sempre útil o terapeuta se
perguntar: - “Quê atitude consciente está sendo compensada pelo sonho?”. Pois,
a produção onírica desempenha importantes e vitais funções na economia
psíquica, o que já vem sendo confirmado pelos neuro-fisiologistas
contemporâneos, os quais têm chegado à conclusão de que não sonhar é mais
prejudicial do que não dormir.
Segundo Nise
da Silveira (2000, p. 94), Jung foi o primeiro a abrir o caminho no estudo da
função compensatória dos sonhos: “No seu conceito, os sonhos funcionam
principalmente como reações de defesa, como auto-reguladores de posições
conscientes, demasiado unilaterais ou anti-naturais”. Ele ressalta a
importância de considerar as convicções filosóficas, religiosas e morais
conscientes, para trabalhar com a simbologia do sonho. É aconselhável, na
prática, considerar aquilo que o símbolo significa em relação à situação consciente,
ou seja, tratar o símbolo como se ele não fosse fixo ou pré-determinado.
Cada
elemento do sonho representa um aspecto da psique do sonhador, mas existem os
sonhos premonitivos, que refletem uma realidade exterior que está para
acontecer, como veremos alguns exemplos deles, posteriormente. Ás vezes ele
indica uma projeção, que não se refere á própria pessoa, por isto ele deve ser
analisado objetiva e subjetivamente. Muitas vezes, um sonho abrange as duas
coisas condensadas numa só imagem. Porém, segundo Von Franz (2007), cerca de
85% dos sonhos são subjetivos e a pergunta que se deve fazer, sempre, é: - “O que em mim faz isto?”. Em vez de tomar
o sonho como um aviso contra terceiros.
A abordagem
junguiana vê o sonho como uma realidade utilizável também no prognóstico.
Afirma que há sonhos que muitas vezes são antecipações e, se forem observados
por um enfoque puramente casuísta, podem perder seu verdadeiro sentido. E
considera ser importante haver uma compreensão conjunta, dialética, entre
terapeuta e paciente, no que diz respeito ao significado de um sonho. Pois,
toda interpretação é uma mera hipótese. E esta só adquire uma relativa
segurança numa série de sonhos, pois somente em série, conteúdos e motivos são
reconhecidos com maior clareza. Para Jung,
“Os sonhos deveriam ser sempre considerados pelo
psicoterapeuta como uma novidade, como uma informação sobre condições de
natureza desconhecida, a respeito das quais tem tanto a aprender quanto o
paciente, ou seja, deveria ele renunciar a todo e qualquer pressuposto teórico
e se predispor a descobrir uma teoria do sonho inteiramente nova para cada
caso” (JUNG, 1999, p. 18).
O sonho
nunca diz o que o sonhador já sabe, aponta-lhe ou indica-lhe pontos cegos, o
desconhecido, por isto pode parecer óbvio para os outros e não para o sonhador,
sendo necessário ser interpretado com a ajuda de outra pessoa. No simples
contar de um sonho pode ocorrer que os significados se revelem. Em geral, não
se devem usar dicionários para interpretá-los, pois estes oferecem uma
interpretação estática, que pode desviar o rumo certo. O simbolismo tem
significados para o sonhador, podendo os dicionários apenas fornecer uma
inspiração ao sonhador, no sentido de conhecer as múltiplas possibilidades daquela
imagem, ao longo da história, nas religiões, mitologia, etc.
Quando
analisado na sua profundidade psíquica, o sonho traz uma sensação de alívio ao
sonhador, ele sente que atingiu um alvo, que nos aproximamos ao máximo de seus
significados, embora ainda reste algo mais ainda, um mistério desconhecido. Na
psicoterapia de base junguiana, seguimos o caminho dos sonhos. Veremos na
segunda parte deste livro que tentamos, o máximo que conseguimos, nos
aproximarmos de seus significados, mas deixamos “o barco correr”. Não nos
preocupamos em enquadrar a cliente em um conceito de normalidade, numa
adaptação ou diagnóstico. O processo segue o seu rumo, segue a psique da cliente,
sua voz interior, que aparece a partir de seus sonhos.
Esta tarefa
não é fácil para ambos, terapeuta e cliente, porque os símbolos, que são a
linguagem dos sonhos, que revelam o inconsciente pessoal e coletivo, nos sonhos
se apresentam vivos, como símbolos vivos. E o que entendemos por símbolo?
Na
perspectiva junguiana, segundo Kast (2010, p. 90), “os símbolos constituem a
linguagem da alma. São mensagens que apontam para necessidades que precisam ser
solucionadas ou para as quais o sonho já traz uma possibilidade de solução”.
Porém, os símbolos oníricos apontam para potenciais não vividos,
imprescindíveis para o processo de individuação. Uma imagem é simbólica quando
indica algo além do seu sentido imediato ou óbvio, adquirindo um aspecto
desconhecido, que nunca será totalmente explicado ou definido, mas é a melhor
representação possível para a psique se manifestar (Jung, 1961). O símbolo
onírico está além de qualquer determinação, tem a propriedade excepcional de
sintetizar as influências do inconsciente e da consciência, bem como as forças
instintivas e espirituais, em conflito ou em vias de se harmonizar no interior
de cada pessoa.
É preciso
usar a intuição para lidar com o símbolo de um sonho, pois ao ser interpretado,
deve-se inspirar não apenas na figura onírica, mas no seu movimento, no meio
cultural do sonhador e em seu papel particular, no aqui-e-agora. Devemos tentar
encontrar a sua matriz, seu código próprio e seu denominador comum, por
exemplo, nem particularizando nem generalizando em demasia, evitando sempre
racionalizar. A forma clássica de abordar os sonhos, defendida por Jung,
consiste em inicialmente ouvir o sonho com precisão e estabelecer o seu
contexto subjetivo, através da coleta de todas as associações livres que surgem
em relação aos elementos oníricos. Mas, usa-se também da imaginação ativa para
vivificar as imagens oníricas.
A imaginação ativa é uma técnica desenvolvida por Jung que toma como
ponto de partida uma imagem de sonho ou fantasia, e a partir daí é solicitado
que o cliente desenvolva livremente o tema trazido pela imagem, dialogando com
ela no “como se”, dramatizando, escrevendo, pintando, etc. Assim, conjugando
imagem e ação, promove o desdobramento do processo inconsciente, a confrontação
com imagens inconscientes, para que estas possam ser compreendidas.
Quando os
sonhos se expressam simbolicamente, e não surgem associações livres da parte do
sonhador, recorre-se, além da imaginação ativa, à técnica junguiana da
amplificação. Nesta, amplificam-se
os motivos dos sonhos, procurando-se relacioná-los, compará-los, levantar
paralelos e analogias com um material simbólico mais amplo: extraído da
mitologia, da história das religiões, dos contos de fadas, etc. Por esta razão,
Jung propunha aos seus pacientes registrar cuidadosamente por escrito os seus
sonhos, logo ao acordar. Para o trabalho com as imagens oníricas, não só
propunha um trabalho dialético verbal, como também solicitava a imaginação ativa
(que o paciente pintasse, desenhasse, fizesse colagens, visualização interna
dirigida, quando poderia dialogar e vivenciar melhor as imagens oníricas), como
já citamos anteriormente.
Enfim, na abordagem junguiana da
interpretação dos sonhos existem três etapas principais: 1) uma compreensão
clara dos detalhes exatos do sonho, valorizando a série deles; 2) a reunião de
associações e amplificações em ordem progressiva, a nível pessoal, cultural e
arquetípico; 3) a colocação do sonho ampliado no contexto da situação vital e
do processo de individuação do sonhador (HALL, 1987, p.43).
Pois, muitas vezes, após a análise de uma série de sonhos, é
possível ao terapeuta e ao seu cliente apenas esperar, vigiar e confiar. O
terapeuta deve tomar cuidado para não cair na tentação interpretativa, pois ao
serem analisados sonhos, não são utilizados termos ou conceitos teóricos com o
cliente, corre-se o grave risco de privilegiar a compreensão intelectual, mais
do que o insight emocional e afetivo. Enfim, “os sonhos e as imagens oníricas
são mais complexos que os conceitos (...). O sonho é mais sutil do que qualquer
modelo teórico da psique, que não deve ser tratada de modo redutivo” (HALL,
1987, p.92 e 83).
Bibliografia:
GALBACH, Marion. Aprendendo com os Sonhos. São Paulo,
Paulus, 2000.
HALL, James. Jung e a Interpretação dos Sonhos – manual
de teoria e prática. São Paulo,
Cultrix, 1987.
JUNG, Carl Gustav. Freud e a
Psicanálise. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth. Petrópolis: Vozes,
1998, 3ª edição, volume IV das Obras Completas.
JUNG, Carl Gustav. Ab-reação, análise dos sonhos e
transferência. C. W. vol.XVI/2, Petrópolis, Vozes, 4ª ed., 1999.
_______________. A prática
da Psicoterapia. C. W. Vol. XVI, Petrópolis, Vozes, 1995.
_______________. O Homem e
seus Símbolos. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1964.
KAST, Verena. Sonhos, a
linguagem enigmática do inconsciente. São Paulo, Ed. Vozes, 2006.
NOVAES, Adenáuer. Sonhos,
mensagens da alma. S
ROBERTSON, Robert. Guia prático
da Psicologia Junguiana. São Paulo, Cultrix, 1992.
SALLES, Carlos Alberto C. Somos
feitos da matéria dos sonhos. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1998.
STEIN, Murray. Jung, o mapa
da alma. São Paulo, Cultrix, 1998.
VON FRANZ, Marie Louise. Psicoterapia.
São Paulo, Coleção Amor e Psiquê, Paulus, 1999.
_________. C. G. Jung seu mito em nossa época. São
Paulo: Cutrix, 1997.
VON FRANZ, M. L. & BOA, Frazer. O caminho dos sonhos. São Paulo, Ed.
Cultrix, 2007.
Artigo escrito por Cybele Ramalho - CRP (19/300), Psicóloga, Psicoterapeuta Junguiana, Psicodramatista e Diretora Técnica da PROFINT - Profissionais Integrados.

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