segunda-feira, 15 de junho de 2015

Resenha Crítica III - Don Juan DeMarco


FILME DON JUAN DE MARCO - ANÁLISE À LUZ DA PSICOLOGIA ANALÍTICA

Thelma Dória


“Existem somente quatro perguntas importantes na vida:
O que é sagrado?
De que é feito o espírito?
Por que vale a pena viver?
Por que vale a pena morrer?
E a resposta a todas elas é a mesma: somente Amor”

Sinopse do filme:

          Um jovem, de 21 anos, acreditando ser Don Juan, vai para Nova York se encontrar com seu amor perdido. Desiludido desse encontro, ameaça se matar. Nesse momento, é chamado o psiquiatra Jack, um senhor, que está prestes a se aposentar e, a partir desse encontro, mudanças e transformações em ambos acontecerão. Assistimos a um perfeito “encontro” entre cliente e terapeuta, uma relação de transferência e contra-transferência curativa, capaz de ratificar Jung que dizia “[…] o encontro terapêutico é como uma mistura de duas substâncias químicas diferentes: no caso de se dar uma reação, ambas se transformam.” (JUNG, 2004, p. 68).

Análise:

         O filme começa com um jovem de 21 anos, vestido de Don Juan e se apresentando como tal, ameaçando suicidar-se, pois quer terminar sua vida gloriosamente (personalidade narcisista). O psiquiatra Jack é chamado para tentar fazê-lo desistir e sobe até ele em um guindaste (uma metáfora do que muitas vezes o terapeuta precisa fazer - subir, ou descer, até alcançar o cliente). Lá, o mesmo não apenas concorda com Don Juan mas se apresenta como Don Otavio de Flores (tio do esgrimista que ele havia solicitado) e ganha sua confiança. Em momento algum duvida que ele seja Don Juan, ao contrário, concorda e se mostra surpreso com isso, o que promove no cliente uma entrega, uma confiança. A partir dessa crença inicial de que ele realmente é Don Juan, o psiquiatra o questiona sobre sua tentativa de suicídio, valorizando seu personagem e questionando: “porque perder a esperança, já que o amor de Don Juan é eterno e não será negado?” - entrando no universo do cliente, falando a sua linguagem, reforçando suas crenças, conseguindo convencê-lo. Para Jung, a realidade psíquica é tão real para o indivíduo quanto o mundo concreto. O paciente está identificado com o arquétipo e o que irá ajudá-lo será a relação de transferência e contra-transferência entre ele e o terapeuta, promovendo as transformações.
       O aparecimento da temática de Don Juan como tema central do filme aponta para a figura mitológica do Don Juan, um sedutor, símbolo da libertinagem - uma figura curiosa e ao mesmo tempo perigosa. Um arquétipo cultural do inconsciente coletivo. O arquétipo do sedutor, com uma personalidade narcisista e uma tendência a compulsão sexual. O “donjuanista” seduz o tempo todo e quando alcança seu objetivo, imediatamente se desinteressa, menosprezando os sentimentos alheios, porque na verdade o que lhe interessa é o desafio de conseguir o objeto amado e ao consegui-lo, seu desejo desaparece. A posse se torna o túmulo do seu próprio desejo.
O complexo de Don Juan se encaixa nas características da personalidade anti-social ou sociopata porque o que lhe importa é o prazer pelas conquistas. Existe uma fixação na figura materna (um complexo Materno), onde a pessoa não consegue integrar o princípio paterno. Fixa-se no “puer aeternus”, desconsiderando as funções da figura paterna que são: auxiliar a desenvolver a consciência, vitalizar o ego e dar limites éticos em relação a sociedade.
         Seu pai era uma figura ausente e morre quando ele tinha 16 anos. Com isso, sua mãe, uma mulher de vários amantes (arquétipo da prostituta), entra para um convento (arquétipo da santa) na tentativa de se redimir da culpa pelas traições e também o abandona.  Fica ao mesmo tempo sem mãe nem pai. Sozinho e perdido no mundo, apaixona-se pela moça com máscara da revista (objeto idealizado) e usa as artimanhas do livro “Don Juan de Marco” vivendo delírios e acreditando ser Don Juan. A máscara usada pelo personagem simboliza os objetos perdidos (a amante e o pai). Ele afirma que ao perder o amor da sua vida jurou não mais tirar a máscara que escondia seu rosto. Como pai e mãe exercem papéis fundamentais na estruturação do indivíduo e as influências posteriores se remetem a essas potências primordiais, o encontro com o terapeuta vai lhe restabelecer a relação com a figura paterna - a criança don-juan e o pai terapeuta.
         A partir daí o psiquiatra se interessa particularmente pelo cliente, vendo a possibilidade de um grande aprendizado e luta para ficar com o caso. Mas, velho, cansado, prestes a se aposentar, o diretor do hospital direciona o caso a outro psiquiatra alegando a falta de força de Jack e o desinteresse do mesmo demonstrado nos últimos anos. Porém, o psiquiatra responsável pelo caso não consegue acessar o cliente e desiste, redirecionando para Jack, que insiste em manter seu paciente sem medicação evitando um embotamento dos seus delírios e apostando na possibilidade de trazê-lo à realidade durante suas poucas dez sessões. Numa tentativa de dar os comprimidos a Don Juan, este lhe pergunta: “para que esses comprimidos, para terminar com os delírios? Então creio que temos que tomá-los juntos, porque o senhor também está delirando”.
         As sessões encantam o psiquiatra que se alimenta do romantismo de Don Juan, ouvindo as mais belas descrições sobre o amor e sobre as mulheres: “Eu não me deixo limitar pela minha visão... trago à tona a beleza que habita dentro delas”. Numa frase dita por Don Juan quando questionado se estaria em um hospital psiquiátrico, ele diz: “eu me permito olhar além do que é visível aos olhos”. A riqueza dos diálogos mantidos nas sessões descortinam a patologia de Don Juan e ao mesmo tempo a tediosa e pouco saudável vida do Dr. Jack. “Você, Don Octavio de Flores, é um grande amante como eu, apesar de ter perdido seu encanto e o seu sotaque”. Ao ser questionado pelo terapeuta sobre a honra da sua mãe, ele responde com agressividade dizendo: “Você precisa de mim para suportar sua própria vida” o que não deixa de ser um questionamento sobre as patologias: quem de nós está adoecido verdadeiramente?  A intensa participação de Don Juan nas sessões reforça a ligação entre terapeuta-cliente e potencializam a confiança entre ambos.  Numa das sessões ele pergunta ao terapeuta: “Eu nunca tiro a minha máscara em público…. Cairei em desgraça. Que faria o senhor se lhe tirassem a máscara?”.
         As máscaras nesse filme têm funções diferentes para o paciente e para o terapeuta. Para o jovem paciente simboliza sua relação com o inconsciente, onde ele se identifica com a mulher mascarada da revista - sua anima; já a máscara do Dr. Jack refere-se a sua persona de profissional que pesava e o sufocava afastando-o da sua identidade e da vida amorosa. Aí percebe-se um exercício complementar dos papéis e contra-papéis de cliente-terapeuta mediante uma perfeita dinâmica de transferência e contra-transferência entre ambos.
         O arquétipo do Curador-Ferido se torna muito claro neste filme, pois o terapeuta (um senex, prestes a se aposentar, melancólico, cansado, gordo, como se voltasse à terra) retoma aspectos do seu “puer” alimentado pelo romantismo, vitalidade, poder de sedução do seu cliente (um puer, jovem, esbelto, leve, destemido, vivendo “nas nuvens” como todo jovem).
        No decorrer das sessões, o paciente vai aos poucos diferenciando aspectos do eu e do não-eu que estavam sendo aplicados de forma patológica e inadequada e se apropriando dos mesmos de forma adequada e direcionada. No exercício da sua função do eu, ele se permite aterrar, se atualizando com as funções terrenas e se tornando membro ativo da sociedade. Veste-se de forma adequada e revela-se dono de si mesmo em contraponto a sua postura anterior, onde era submisso aos delírios e viagens do seu inconsciente. Finalmente o protagonista entra em contato com seu mundo real, reconhecendo sua origem e sua trajetória de vida, retira suas roupas de Don Juan, a máscara e tem alta do hospital.
       Paralelamente, Dr. Jack também retira as máscaras referentes a seu papel profissional que o impediam de ver além, dando asas a seu lado romântico, criativo e surpreendente que havia abandonado nas gavetas da rotina e do descrédito da vida.  Cura-se com a mesma intensidade que o jovem cliente. Misturam-se na medida certa, dando e recebendo o que cabia a cada um, na medida do afeto e da confiança que estabeleceram nessa linda, apaixonante e amorosa despedida profissional.


REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:

JUNG, C.G.  A Prática da Psicoterapia. Petropolis: Vozes, 2004

JUNG, C.G. Fundamentos da Psicologia Analítica. Petropólis: Vozes, 1985.

JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente. Petropólis: Vozes, 1987


Resenha Crítica por Thelma Dória, estudante do Curso de Formação de Psicologia Analítica, realizado pela PROFINT - Profissionais Integrados Ltda.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Artigo III



O MITO DE EROS e PSYCHÊ (relato e reflexões):
Cybele Maria Rabelo Ramalho

        Nossa proposta é rever o conhecido mito grego de Eros e Psychê à luz da teoria junguiana, seguindo uma abordagem simbólica, associando-o à teoria do desenvolvimento da personalidade, descrita por Carlos Byington (1987). Iniciando nossa breve exposição do mito pela origem etimológica dos termos, vemos em Eros o “amor personificado”, o desejo ardente dos sentidos, o prazer; e em Psychê, vemos a “alma personificada”, o princípio vital, o sopro, o ar.
        A história mítica é encontrada originalmente no livro de Apuleio, “O Asno de Ouro”; e tem sua origem no século II antes de Cristo, referindo-se à jornada heróica da mulher em busca do amor, para tal enfrentando  muitos desafios existenciais. Como este é um mito já bastante conhecido, o resumiremos aqui para fins didáticos, destacando apenas os detalhes, dividindo um resumo do mito original em trechos e acrescentando nossos comentários.

1)      Um rei tinha três filhas, mas a mais nova era tão formosa que todos a julgavam mais bela que Afrodite, a deusa da beleza. Por isto, os templos desta deusa foram esquecidos e abandonados. As duas filhas mais velhas se casaram, mas a mais formosa, Psychê, não arranjava pretendente. Afrodite, sentindo-se preterida, invejando Psychê, pede a seu belo filho Eros que vá até o reino fazê-la apaixonar-se pelo mais horrendo dos homens. Preocupado com sua filha, o rei mandou consultar o oráculo de Apolo e a resposta foi que a jovem deveria ser levada para o alto de um rochedo para ser entregue a um monstro terrível. No entanto, ao ver a bela jovem Eros se encantou e se feriu com a própria flecha, apaixonando-se. Ordenou ao vento Zéfiro, que a levasse para uma vale macio e florido, um paraíso, onde seria bem tratada por escravas, não de carne e osso, mas uma multidão de vozes invisíveis, que atendiam a todos os seus desejos. Satisfeita, ela viveu um bom tempo neste vale de sonhos. Ele só a visitava à noite, quando tinham um maravilhoso encontro amoroso, porém sem Psychê poder ver a sua verdadeira face divina. As vozes sempre solícitas, a consolavam da solidão. E finalmente, Psychê chega a engravidar de Eros.

         Vemos aí o quanto a “hybris”, o orgulho do mortal ao desejar se igualar aos deuses, pode ser uma afronta a estes, pois segundo os gregos se reproduz como um pecado para os mortais. O casal vive a sua fase inicial cega e encantada do relacionamento. Psychê está, neste momento, vivendo o Dinamismo Matriarcal, onde impera o arquétipo da Grande Mãe e é regida pelo princípio do prazer, pela sensualidade, pelo sentimento, aconchego e fertilidade. Nesta fase do relacionamento, ela não se reconhece verdadeiramente, nem reconhece verdadeiramente Eros, o seu Outro. Vive um estágio de indiferenciação e alienação. Como previra o oráculo, ela vive o “monstro terrível” da paixão. Para ele é levada por Zéfiro, o vento, entrando na dinâmica do invisível, numa dimensão diferente, que não é a da consciência.

2)      As irmãs de Psychê tomam conhecimento de que ela está rica e sendo bem tratada pelo marido, vivendo num paraíso. Sentem inveja da sua felicidade, pois não são felizes. Vão visitá-la e perguntam-lhe sobre a verdadeira identidade do seu marido, atiçando-lhe a dúvida: seria ele um monstro, ou uma serpente, que poderia um dia devorá-la, como prevenira um dia o oráculo? Eros prevê a ameaça das irmãs de Psychê e a adverte, pede para não ouvi-las, impondo-lhe, mais uma vez, “nunca de fato ver a sua verdadeira face”. Mas ela, movida pela curiosidade, se prepara para vê-lo à noite, quando dorme, fazendo uso de uma lanterna e de um punhal. Ao ver seu belo rosto, fica tão maravilhada que derrama uma gôta de óleo quente da lamparina sobre o seu corpo, despertando-o do sono. Indignado por ser desobedecido, Eros se enfurece e vai embora, deixando Psychê mais apaixonada e desesperada.Tenta se suicidar jogando-se nas águas de um rio, mas o deus Pã a devolve à terra, lhe dizendo para não desanimar, mas sim invocar a Eros para recuperar o seu amor. Psychê começa a sua peregrinação em busca de Eros.

         Vemos o quanto as irmãs, invejosas e competitivas, representam o lado sombrio de Psychê, que começa a emergir. Ao usar da luz da lamparina, ela começa a desenvolver a sua consciência, a querer conhecer, verdadeiramente, o seu parceiro, não e submetendo cegamente a ele, revoltando-se contra um patriarcado demasiadamente rígido. O punhal, por outro lado, representa o aspecto cortante da sua personalidade. Ela ataca o Amor (Eros), como se ele fosse um verdadeiro monstro que estivesse chegando e ao qual ela teme, castrando sua espontaneidade. Assim, ela enfrenta a dor do conhecimento e da transgressão. Mas, por outro lado, expulsa do paraíso ela começa a sair da indiferenciação, a sair da inocência e a iniciar a sua existência, sua jornada heróica. Enquanto isto acontece, Eros se recupera da sua ferida narcísica por ter sido visto por uma mulher mortal, convalesce da queimadura. A gota de azeite que o fere representa a marca que o amor de Psychê deixou nele, pois, a partir dela, será outro. Sua presença o obriga a descer da sua defesa patriarcal e se sensibilizar, humanizar, contactar com o seu feminino interno.

3)      Assim, Psychê não tem outra alternativa senão recorrer à sogra, Afrodite, que após humilhá-la e bater-lhe, impõe que ela realize quatro tarefas para recuperar Eros, tarefas estas consideradas perigosas e impossíveis. A primeira tarefa consiste em separar uma montanha de sementes numa noite. Nesta tarefa, Psychê é auxiliada pelas formigas, que desempenam este trabalho para ela.

        As tarefas representam todo um ritual que Psychê precisa passar, para evoluir do estágio de “menina” para mulher, evoluindo no seu processo de Individuação. Podemos inferir que, nesta primeira tarefa, Psychê ainda está vivenciando o Dinamismo do Matriarcado (Byington, 1987), tentando sair da indiferenciação, regida pelo prazer, pelo sonho e pelo invisível. Para tal ela é ajudada pelos seres filhos da terra, as formigas, símbolos da paciência e da persistência. As formigas trazem a possibilidade de organização e disciplina. Representam também os instintos ctônicos mais primitivos, que estão presentes, simbolizando um princípio inconsciente selecionador instintivo. As ágeis criaturas da terra é que vão ajudar Psychê a aprender a discriminar, no meio do caos e da confusão. Os grãos que devem ser selecionados representam os potenciais ocultos da vida, os quais ela precisa descobrir e saber selecionar, separar o que é bom do que é mal para ela. No campo do Amor, este é um importante aprendizado para a mulher, que lhe orienta a escolha entre “o mocinho ou o bandido”.

4)      A segunda tarefa é recolher os flocos de lã de ouro de ovelhas ferozes. Desesperada, Psychê tenta mais uma vez o suicídio, por julgar impossível enfrentar as ovelhas. Ao se jogar no rio, um caniço, planta flexível da água, a aconselha a recolher os flocos do chão do pasto, ao por do sol, quando as ovelhas se recolhem para dormir, sem poder atacá-la. Psychê segue seu conselho e consegue com sucesso realizar a tarefa.

          Nesta tarefa, ela é auxiliada pelo caniço encontrado nas águas, simbolo da flexibilidade e da maleabilidade. As ovelhas ferozes representam o Masculino feroz, o rude, o primitivo, ao qual Psychê precisa enfrentar com atitudes flexíveis. O ouro e o sol representam o poder valioso do Masculino. Ela aprende que não deve se encontrar com o Masculino em seu extremo de ferocidade, mas quando este se ameniza. Em outras palavras, como se diz no provérbio popular, aprende a “não cutucar o cão com vara curta”, mas na hora e da forma adequada. Quando o sol se põe, surge a situação propícia para o amor. Esta tarefa ensina que a mulher não pode deixar o homem (nela e na frente dela) furioso, se ela quer resolver uma questão, mas usar a sabedoria da flexibilidade, para “tirar o ouro do homem”, sem feri-lo nem ferir-se. Ensina a aprender a lidar com a autoridade, com os limites dela e do seu parceiro, sem ser castradora. Por isto, representa a entrada de Psychê no Dinamismo do Patriarcado (Byington, 1987), quando ela vai aprender a lidar com as leis do arquétipo do Pai.

5)      A terceira tarefa ordenada por Afrodite é recolher uma porção de água da fonte de um rio, que sobe uma montanha e desce às profundezas da terra, numa pequena urna de cristal. A fonte ficava no alto de um penhasco e protegida por dragões ferozes. Desesperada, Psychê é auxiliada nesta tarefa pela àguia de Zeus, pois este tenta ajudar Eros a recuperar o seu amor, sendo então a águia que recolhe a água da fonte para ela.

       A urna de cristal simboliza a feminilidade de Psychê, que deverá conter o Masculino fecundante, o líquido da vida. Ela tem de mobilizar, para realizar esta tarefa, seu recurso interno aéreo, espiritual, representado pela águia, que vai unir o masculino e o feminino, sendo esta uma união sagrada de opostos, uma espécie de Coniunctio Superior. Esta águia vem de Zeus, o representante maior dos deuses gregos, que a ajuda a transcender. O rio que sobe ao alto e desce às profundezas é como uma fonte de água que une o céu e a terra, o espiritual ao instintivo. Esta tarefa ensina que a mulher precisa integrar o seu aspecto masculino inconsciente para poder se desenvolver. Precisa aprender a ter vitalidade interna, determinação, amplitude, força e coragem nos seus atos, o que é ativado nesta tarefa pela águia. Esta é o elemento de núcleo anímico da Alma que vem para auxiliá-la a encontrar o masculino interno. Assim, ela se prepara para a integração interna de opostos, e consequentemente, para o Encontro Eu-Tu, como uma espécie de ritual de iniciação para o verdadeiro Amor. Segundo Byington ( 1987) este estágio de desenvolvimento da personalidade é o do Dinamismo da Alteridade, regido pelos arquétipos da Anima, do Animus e da Coniunctio. É o dinamismo que rege as relações de troca e de reversibilidade, inversão de papeis e mutualidade na relação, em nível criativo e dialético. O princípio essencial deste dinamismo é o chamado para o Encontro, através do engajamento pelo conhecimento, pelo amor e pela entrega.

6)      A quarta e última tarefa é para descer aos infernos, ao Hades, para buscar numa caixinha fechada, o que fornece beleza a Perséfone, a rainha do inferno. Psychê acha que é impossível realizar esta tarefa e sobe à Torre, para tentar o suicídio pela terceira vez. A cada tentativa, morre uma Psychê para nascer outra, renovada e metamorfoseada em suas atitudes e recursos internos. Mas, neste momento da terceira tentativa, a Torre fala a Psychê e a orienta para a travessia para o Inferno. É recomendada a jamais abrir a caixinha que continha a beleza imortal. Entre as recomendações está que ela não deve atender às súplicas para ajudar a um ancião morto e a velhas tecelãs. Enfim, ela consegue a caixinha mas, curiosa e tentando ficar mais bela para agradar o seu amor Eros, a abre. Um sono infernal atinge Psychê de imediato, pois sono era só o que havia na caixa. Neste impasse, finalmente Eros, curado da sua ferida narcísica, se mobiliza para ajudá-la, pedindo a Zeus que lhe tire o sono e devolva a caixa a Afrodite. Zeus o atende. Psychê é julgada pelos deuses e considerada inocente, obtendo o grau de imortal e levada da terra para o céu, casando finalmente com Eros. Ela dá à luz a uma filha, chamada Volúpia, que significa prazer e bem aventurança.

       Nesta última tarefa, finalmente Psychê é inserida no Dinamismo Cósmico, da Totalidade e da Sabedoria (Byington, 1987), na dimensão do seu Self. A Torre é um símbolo cultural que emerge do inconsciente coletivo, símbolo de Hera, do elemento fogo (espiritual),  que a orienta a não se deixar levar pela piedade, para não carregar o peso de“ pessoas mortas”, saber dizer não a quem tente suga-la e faze-la  se desviar do seu destino.
       A fim de completar as quatro tarefas perigosas para encontrar o Amor, Psychê se auxilia de uma divindade e de um elemento da natureza. Revisando, encontramos no Mito: 1) as formigas, representando a deusa da terra, Deméter e o elemento terra; 2) o caniço, representando o deus Pã, e o elemento água; 3) a águia, representando Zeus, e o elemento Ar; 4) a Torre, representando Hera e o elemento fogo.
       A integração perfeita dos quatro elementos forma o quatérnio, que por sua vez contém o círculo, símbolo da unidade e do Self (a ‘quadratura do círculo’). Na perspectiva pitagórica, o amor é o princípio cósmico de unificação dos elementos que constituem a Natureza. Neste Mito, se reconstitui o ciclo cósmico, com a ajuda dos quatro elementos vitais. E finalmente Psychê, derrota o “monstro” que poderia devorá-la, assimilando-o e transformando-o.             
         Voltando à origem etimológica dos termos EROS e PSYCHE, a sua união representa a integração do corpo (desejo ardente) com a alma. A nossa heroína, Psychê, que estava inicialmente indiferenciada e dividida (na dualidade), aprende ao final do seu processo de Individuação a integrar o mundo da Natureza ao mundo espiritual, através da vivência do Amor, o que a conduz à experiência de realização do seu Self.


BIBLIOGRAFIA :
VON FRANZ, Marie L. – “A interpretação dos Contos de Fada”, São Paulo., Ed. Paulus, 1990.
__________________, - “O Significado Psicológico dos Motivos de Redenção nos Contos de Fada”, São Paulo, Ed. Cultrix, 1993.
BONAVENTURE, Jette – “O que conta o conto”, São Paulo, Ed. Paulus, 1998.
MONTEIRO, Regina – “Jogos Dramáticos”, São Paulo, Ed. Àgora, 1993.
BYINGTON, Carlos – “O desenvolvimento da Personalidade”, São Paulo, Ed. Àtica, 1987.
BETTHELHEIM, Bruno – “Psicanálise dos Contos de Fada”, São Paulo, Ed. Paz e Terra, 1980.


 Artigo escrito por Cybele Ramalho - CRP (19/300), Psicóloga, Psicoterapeuta Junguiana, Psicodramatista e Diretora Técnica da PROFINT - Profissionais Integrados.

Artigo II



AS CONTRIBUIÇÕES DE  C. G. JUNG PARA A COMPREENSÃO DOS SONHOS

Cybele Maria Rabelo Ramalho

“Os sonhos são natureza pura; eles nos mostram a verdade natural, sem maquiagem, e por isto se prestam nada mais do que a dar-nos de volta uma atitude que está de acordo com a nossa natureza humana básica, quando nossa consciência se desviou demais de seus fundamentos e chegou a um impasse” (JUNG, 1999, p.78).

           Após as pesquisas desenvolvidas sobre sonhos por Freud, foi Carl Gustav Jung (1875-1961) quem mais contribuiu para a análise de sonhos. Tal como Freud, considerava-os como uma ponte entre o consciente e o inconsciente, um meio de interpretar o simbolismo do inconsciente. Assim, para Jung, o sonho é uma auto-representação espontânea, sob forma simbólica, da situação real do inconsciente. Enquanto área de encontro entre a dimensão consciente e inconsciente da psique, o sonho participa de ambas, unindo-as em seus símbolos. Ele enfatiza a importância de se desvendar a dimensão simbólica do ser humano através dos sonhos. Estes, emergem à mente consciente completamente “sem sentido”, sob a forma de imagem, metáfora ou símbolo, numa linguagem intimamente ligada á arte, mas na realidade são confrontos pessoais subjetivos (VON FRANZ, 2007).

             Jung discordou de Freud no que se refere aos sonhos como apenas desejos sexuais reprimidos, concluindo que essa interpretação era muito restritiva. Para ele, os sonhos traziam mensagens do inconsciente em relação aos momentos já vividos, mas também do presente e do futuro. Assim, ao contrário de Freud, que dizia que os sonhos escondiam a verdade e era um disfarce para o desejo reprimido (FREUD, 1945), Jung acreditava que o sonho tendia a mostrar a verdade que a consciência ainda não havia percebido. Segundo Nise da Silveira (2000, p. 91) para ele, “o sonho é aquilo que ele é, inteiramente e unicamente aquilo que é; não uma fachada, não é algo pré-arranjado, um disfarce qualquer, mas uma construção completamente realizada”.

          No seu entendimento, todas as figuras do sonho são aspectos personificados da personalidade do sonhador, representam fatores autônomos da própria personalidade. Ele não aceitou que o sonho tivesse uma significação diferente da sua apresentação evidente, de modo que começou a estudar a forma e o conteúdo dos sonhos, considerando-os um fenômeno natural e normal, que “não significa outra coisa além do que existe dentro dele”. Segundo o próprio Jung, “a confusão nasce do fato de serem simbólicos os seus conteúdos e, portanto, oferecerem mais de uma explicação. Os símbolos apontam direções diferentes daquelas que percebemos com a nossa mente consciente” (JUNG, 1964, p. 90).

         Assim, Jung discordava do método puro da “livre associação” desenvolvido por Freud (1945), no trabalho com os sonhos. Para ele era importante a coleta do contexto subjetivo do sonho através de associações, mas considerava a técnica freudiana da associação livre muito linear, conduzindo em geral aos complexos do sujeito. Assim, propõe que as associações se agrupem em torno da imagem do sonho, permanecendo próximas desta e sempre retornando a ela.

         Julgava essencial apreciar o sonho em sua dimensão criativa, a qual decorre do ponto de vista final-construtivo, que revela uma tensão psíquica dirigida a um fim futuro, teleológico, ou a uma significação ainda por aparecer. Este ponto de vista se opõe ao enfoque causal-redutivo freudiano. Segundo ele (JUNG, 1964, p. 38): “As imagens e ideias contidas no sonho não podem ser explicadas apenas em termos de memória; expressam pensamentos novos, que ainda não chegaram ao limiar da consciência”.

           O conceito mais marcante da teoria junguiana é a ideia de inconsciente coletivo, que consiste no conjunto de símbolos e arquétipos comuns a quase todos os povos, que estariam gravados numa espécie de “memória coletiva”, presente nos níveis mais profundos de nosso inconsciente. Assim, muitos sonhos apresentam imagens e associações semelhantes aos ritos primitivos e aos mitos. Jung observou que, o que Freud chamou apenas de “resíduos arcaicos” do inconsciente, sem dar muito valor, são elementos psíquicos que sobrevivem na mente humana, a tempos imemoriais, têm significação e uma função valiosa. São associações históricas e primitivas, que estabelecem um elo entre o mundo racional da consciência e o mundo do instinto. Enfim, representam algo muito além da experiência pessoal do sonhador.

           Desta forma, ele afirmou que, através dos sonhos, se revelavam as imagens arquetípicas. Então os arquétipos, ou “imagens primordiais”, são definidos por ele como “uma tendência instintiva para formar representações variadas de um motivo, sem perder a sua configuração original” (JUNG, 1964, p. 67). Estas reações e impulsos fundamentam-se num sistema instintivo pré-formado e sempre ativo, característico do homem. “Formas de pensamento, gestos de compreensão universal e inúmeras atitudes seguem um esquema estabelecido, muito antes do ser humano ter desenvolvido uma consciência reflexiva” (Ibidem, p. 76).
         
           Assim, esses “sonhos de arquétipo ou arquetípicos” seriam os mais importantes para Jung, pois sua mensagem e simbologia não correspondiam somente à vida daquele cidadão, mas à humanidade em geral. Para ele, “os arquétipos informes alcançam uma forma, na medida em que os vivenciamos em nossas vidas externas e em nossos sonhos” (ROBERTSON, 1992, p. 50).      

            Segundo Hall (1987) a atividade das camadas mais profundas da psique é claramente vivenciada em sonhos, que é uma experiência humana universal e pode irromper de forma excessiva também nas crises emocionais agudas, por exemplo. Assim, o sonho pode compensar distorções temporárias na estrutura do ego, dirigindo o indivíduo a um entendimento mais abrangente das suas atitudes e ações, complementando a visão unilateral que o ego tem da realidade. Nos sonhos aparecem imagens ou figuras que personificam complexos, anima/ animus, persona e sombra (positivas ou negativas, pessoais ou coletivas), assim como várias formas e papéis do ego. Mas, também expressam imagens da nossa personalidade global, do centro arquetípico da psique, que Carl Jung denominou de Self. Tentarei descrever estes conceitos junguianos acima citados a seguir, para facilitar a compreensão do leitor.

          Os complexos são “os motores da psique, como diferentes núcleos que impulsionam e vitalizam a psique, são os seus centros de energia” (VON FRANZ, 2007, p.38). Temos como exemplo um complexo materno ou paterno, sexual, etc. Para Jung, em geral os complexos são os personagens dos sonhos, eles aparecem de forma personificada, quando estão inibidos pela consciência. Eles são o ponto de partida para nossas fantasias. Para Hall (1994, p. 25), um complexo é

“um grupo de imagens inter-relacionadas que se baseiam num núcleo arquetípico e tendem a apresentar uma tonalidade emocional comum. Qualquer imagem associada a um complexo pode levar a uma liberação de emoções. Por exemplo, uma mulher com um complexo paterno negativo, pode descobrir que esses sentimentos negativos irrompem em sua consciência sempre que ela interage com qualquer homem que evoque uma imagem associada com o complexo”.

Segundo Hall (1987), a maior parte do uso clínico dos sonhos tem a finalidade de expressar complexos. Estes devem ser identificados através de técnicas expressivas e imaginativas que facilitem a sua interpretação, pois “o trabalho com sonhos é talvez a abordagem mais direta e natural para se alterar complexos” (HALL, 1987, p. 36). No entanto, o terapeuta deve estar consciente de que nem tudo está ao alcance do ego. 

        A sombra por sua vez, é o arquétipo que se opõe à persona e aparece muito em sonhos. Aparece representada por pessoas do mesmo sexo do sonhador, que apresentam qualidades e atitudes inferiores ou opostas à sua persona, ou seja, àquilo que ele aceita como próprio. “Pode personificar nosso lado inferior, nosso inimigo, mas também pode ser apenas nosso outro lado” (VON FRANZ, 2007, p. 39). Os traços obscuros do nosso caráter possuem uma natureza emocional, e certa autonomia, portanto, para aceitá-la precisamos fazer um esforço moral. A sombra costuma ser vista com mais frequência projetada em outra pessoa, dissociada do ego. Pode-se admirar esta pessoa (projeção da sombra positiva) ou detestá-la (projeção da sombra negativa). Segundo Jung (2000, p. 8), “é bem possível que o indivíduo reconheça o aspecto relativamente mau de sua natureza, mas defrontar-se com o absolutamente mal representa uma experiência ao mesmo tempo rara e perturbadora”. 

         A anima é o lado feminino inconsciente do homem e o animus o masculino inconsciente da mulher. São representados nos sonhos dos homens e das mulheres por figuras femininas e masculinas, respectivamente. Como nos interessa neste caso o desenvolvimento do feminino, o animus pode aparecer em formas ou representações positiva (como masculinidade viril, força, coragem, planejamento, intelecto e espiritualidade), ou negativa (um estuprador, violento, mordaz, enganador, um demônio, etc.). Segundo Hall (1994, p. 28), quando “a anima/animus funciona de maneira positiva, no interior da personalidade ela aparece em sonhos e fantasias como uma espécie de guia da alma, um psicopompo, que leva o pequeno eu na direção do Si-mesmo (Self)”.
          
         Para Jung (2000, p. 12), o animus, por exemplo, designa a razão ou o espírito, corresponde ao Logus paterno, confere ás mulheres um caráter meditativo, capacidade de reflexão e conhecimento, concepções filosóficas e religiosas. Uma forte ação sugestiva promana deste arquétipo, fascinando a consciência, podendo deixá-la prisioneira.

“Anima e animus se constituem parte de um domínio especial da natureza, que defende sua inviolabilidade com o máximo e obstinação. Por isto é muito mais difícil conscientizar-se das próprias projeções do par anima/animus, do que reconhecer nosso lado sombrio. (...) Por isto, apresenta-se uma dúvida, e esta muito mais profunda, a de saber se não estamos nos intrometendo no domínio próprio da natureza, tornando-nos conscientes de coisas que no fundo, seria melhor deixá-las adormecidas”(Ibidem, p. 15).

            Ainda assim, segundo Jung há certo número de pessoas que pode compreender, no plano moral e intelectual, as manifestações da anima/animus sem muita dificuldade. Muitos destes conteúdos são projetados em figuras de sexo oposto, mas muitos afloram em sonhos ou são acessados através da psicoterapia, em exercícios de imaginação ativa. Todavia, a autonomia do inconsciente coletivo vai se expressar nas figuras de anima e animus.

          A integração da sombra, do inconsciente pessoal, é a primeira etapa do processo de psicoterapia analítica, etapa necessária ao conhecimento das representações da anima/animus. O elemento seguinte a ser acessado pela consciência é, para o homem, o arquétipo do velho sábio e, para a mulher da mãe ctônica. Somente depois e através destes o indivíduo pode ter, enfim, acesso às manifestações do seu Self (Ibidem).

           O Self, por sua vez, é o arquétipo central da psique, o centro do qual provém a ordem, o equilíbrio e a organização. Para Jung, os sonhos são uma função do Self, eles refletem sua influência e servem para compensar o estado consciente da pessoa, ou seja, em geral questionam a nossa auto-imagem, enfatiza o que ignoramos pelas atitudes conscientes, exercem uma função de equilíbrio. Imagens do Self podem aparecer nos sonhos de inúmeras formas, como por exemplo, sob a forma de mandalas, uma cidade interior, uma praça redonda, uma flor, um círculo, um quadrado ou retângulo, uma criança, uma deusa, etc. No dizer de Jung (1991, p. 16):

“O Si-Mesmo aparece empiricamente em sonhos, mitos e contos de fadas, na figura de ‘personalidades superiores’ como reis, heróis, profetas, salvadores, etc., ou na figura de símbolos de totalidade, como o círculo, o quadrilátero, a cruz...Enquanto representa uma união de opostos, também pode manifestar-se como dualidade unificadora, como por exemplo, no Tao, onde concorrem o yang e o yin. (...) O Si-Mesmo aparece como um jogo de luz e sombra, ainda que seja entendido como totalidade e, por isso, como unidade em que se unem os opostos.
Segundo Von Franz (1997, p. 117), o símbolo do mandala aponta para “uma unidade psíquica interior última, para o centro, para o Self. Para Jung o alvo do desenvolvimento psíquico é o Self e o mandala é o centro. É o expoente de todos os caminhos. É o caminho para a individuação.”
           Para Jung (2000, p. 22), “o Si-Mesmo é representado na psique por uma imagem divina (imago Dei)”[1] e a assimilação do eu pelo Self pode ser considerada uma catástrofe psíquica. Pela natureza arcaica do inconsciente coletivo, se o eu fica sob o seu controle, pode sofrer uma desadaptação ou perturbação emocional mais ou menos grave.  Corre-se o risco de inflação do ego, ou seja, vai sofrer de presunção, devendo para manter o equilíbrio, desenvolver a modéstia e o foco na realidade. Saber conviver de maneira correta com as manifestações numinosas do Self é algo muito difícil, que vai exigir do eu a humildade. Conceder a autoridade interna do Self como “vontade de Deus”, obedecer às vozes do Self como manifestações divinas, é algo que pode promover a inflação do eu e deve ser combatido com a razão. Segundo Jung,

 “Pode ser mais vantajoso e psicologicamente mais correto considerar como a vontade de Deus, pois assim nos colocamos em consonância com o hábito da vida psíquica ancestral, facilitando a nossa sobrevivência. Mas, é necessário saber conviver com estes dados absolutos que nos provém do Self, porque a vontade do eu só consegue dominá-los parcialmente” (Ibidem, p. 25).  

                 Jung afirmava que a verdade e a realidade que o consciente reluta em aceitar, ou não aceita de todo, representam a situação interna do indivíduo e são retratadas nos seus sonhos. Dessa forma, o sonho é uma expressão de um processo psíquico inconsciente, totalmente alheio à nossa vontade e, logo, longe do controle da consciência. Daí, o sonho não pode expressar um conteúdo muito definido.        Revelando a importância da análise dos sonhos para a psicoterapia, Jung afirma que esta análise forma um registro das etapas do processo de individuação, processo este responsável pelo crescimento do indivíduo em busca contínua e eterna do seu verdadeiro Self.
      
          Para ele, o sonho reflete em síntese a vida do sonhador, em suas relações com o meio, assim como na sua dinâmica interna. Representam os progressos e as regressões, as possibilidades e as impossibilidades do metabolismo psíquico, seus conflitos e transformações.  Ele acrescenta:

“O sonho é o teatro em que o sonhador é, simultaneamente, a cena, o ator, o ponto, o diretor, o autor e o crítico. Esta verdade tão simples é a base deste conceito do significado onírico que designei sob o termo de interpretação no plano do sujeito” (JUNG, apud HUMBERT, 1985, p.29):

         Aproveitando que ele usou o teatro como metáfora, partimos do conceito junguiano de que as estruturas do sonho não são diferentes das estruturas do drama. O sonho é um drama constituído de cenas. Assim, ele insiste no ponto de que as figuras, imagens e ações do sonho são elementos próprios da subjetividade do sonhador. E, para ele, o conteúdo manifesto é tão importante quanto o latente. Criticou Freud por não levar em consideração o conteúdo manifesto, por se contentar em usar o sonho apenas como ponto de partida para associações. Pois, como vimos anteriormente, achava que o conteúdo manifesto pode ser considerado por aquilo que ele traz.
    
         A cada elemento do sonho, solicitam-se associações, examina-se de que forma se aplica ao momento atual, ou ao seu passado, etc. Em geral, para além das tramas e peripécias do sonho, ele contém um drama e o seu final contém aspectos que precisam ser conscientizados, pois o sonho visa também corrigir nossas atitudes e nos alertar (VON FRANZ, 1997). Porém, nem todos os sonhos suscitam associações. Os arquetípicos, por exemplo, têm um significado mitológico, recorrendo-se às analogias ou amplificações (da humanidade em geral, da mitologia, da história, do folclore, das religiões, etc.).         


[1] Deus é aqui entendido não no sentido cristão, mas no sentido de Daimon, um poder determinante que vem ao encontro do homem, de fora, tal como o poder da Providência e do destino. Segundo Jung, “neste encontro, é ao homem que se reserva a decisão ética. Ele precisa saber a respeito do que decide, e saber também o que está fazendo” ( JUNG, 2000, p. 25).  

        O trabalho clássico de interpretação na análise junguiana “consiste em deixar andar as associações, até descobrir os fatores latentes e, depois, trazê-los de volta às formas e papéis que assumiram no conteúdo manifesto” (HUMBERT, 1985, p.29). Pois, na visão junguiana, o sonho não é só a realização de desejos arcaicos, mas se insere no presente do sonhador e tem um papel de “compensação”, visto que ele é uma auto-representação espontânea e simbólica da situação atual do inconsciente. Assim, afirma ele: “Duvido que um sonho seja algo diferente do que realmente parece ser. O sonho é sua própria interpretação” (JUNG, 1987, p. 87).

        Esta função compensatória do sonho tende a arrancar o psiquismo da repetição, a corrigir a situação pré-existente. Quando se interpreta clinicamente um sonho, diz Jung que é sempre útil o terapeuta se perguntar: - “Quê atitude consciente está sendo compensada pelo sonho?”. Pois, a produção onírica desempenha importantes e vitais funções na economia psíquica, o que já vem sendo confirmado pelos neuro-fisiologistas contemporâneos, os quais têm chegado à conclusão de que não sonhar é mais prejudicial do que não dormir.
  
       Segundo Nise da Silveira (2000, p. 94), Jung foi o primeiro a abrir o caminho no estudo da função compensatória dos sonhos: “No seu conceito, os sonhos funcionam principalmente como reações de defesa, como auto-reguladores de posições conscientes, demasiado unilaterais ou anti-naturais”. Ele ressalta a importância de considerar as convicções filosóficas, religiosas e morais conscientes, para trabalhar com a simbologia do sonho. É aconselhável, na prática, considerar aquilo que o símbolo significa em relação à situação consciente, ou seja, tratar o símbolo como se ele não fosse fixo ou pré-determinado.

        Cada elemento do sonho representa um aspecto da psique do sonhador, mas existem os sonhos premonitivos, que refletem uma realidade exterior que está para acontecer, como veremos alguns exemplos deles, posteriormente. Ás vezes ele indica uma projeção, que não se refere á própria pessoa, por isto ele deve ser analisado objetiva e subjetivamente. Muitas vezes, um sonho abrange as duas coisas condensadas numa só imagem. Porém, segundo Von Franz (2007), cerca de 85% dos sonhos são subjetivos e a pergunta que se deve fazer, sempre, é: - “O que em mim faz isto?”. Em vez de tomar o sonho como um aviso contra terceiros.    

         A abordagem junguiana vê o sonho como uma realidade utilizável também no prognóstico. Afirma que há sonhos que muitas vezes são antecipações e, se forem observados por um enfoque puramente casuísta, podem perder seu verdadeiro sentido. E considera ser importante haver uma compreensão conjunta, dialética, entre terapeuta e paciente, no que diz respeito ao significado de um sonho. Pois, toda interpretação é uma mera hipótese. E esta só adquire uma relativa segurança numa série de sonhos, pois somente em série, conteúdos e motivos são reconhecidos com maior clareza. Para Jung,

“Os sonhos deveriam ser sempre considerados pelo psicoterapeuta como uma novidade, como uma informação sobre condições de natureza desconhecida, a respeito das quais tem tanto a aprender quanto o paciente, ou seja, deveria ele renunciar a todo e qualquer pressuposto teórico e se predispor a descobrir uma teoria do sonho inteiramente nova para cada caso” (JUNG, 1999, p. 18).

        O sonho nunca diz o que o sonhador já sabe, aponta-lhe ou indica-lhe pontos cegos, o desconhecido, por isto pode parecer óbvio para os outros e não para o sonhador, sendo necessário ser interpretado com a ajuda de outra pessoa. No simples contar de um sonho pode ocorrer que os significados se revelem. Em geral, não se devem usar dicionários para interpretá-los, pois estes oferecem uma interpretação estática, que pode desviar o rumo certo. O simbolismo tem significados para o sonhador, podendo os dicionários apenas fornecer uma inspiração ao sonhador, no sentido de conhecer as múltiplas possibilidades daquela imagem, ao longo da história, nas religiões, mitologia, etc.

       Quando analisado na sua profundidade psíquica, o sonho traz uma sensação de alívio ao sonhador, ele sente que atingiu um alvo, que nos aproximamos ao máximo de seus significados, embora ainda reste algo mais ainda, um mistério desconhecido. Na psicoterapia de base junguiana, seguimos o caminho dos sonhos. Veremos na segunda parte deste livro que tentamos, o máximo que conseguimos, nos aproximarmos de seus significados, mas deixamos “o barco correr”. Não nos preocupamos em enquadrar a cliente em um conceito de normalidade, numa adaptação ou diagnóstico. O processo segue o seu rumo, segue a psique da cliente, sua voz interior, que aparece a partir de seus sonhos.   
      
         Esta tarefa não é fácil para ambos, terapeuta e cliente, porque os símbolos, que são a linguagem dos sonhos, que revelam o inconsciente pessoal e coletivo, nos sonhos se apresentam vivos, como símbolos vivos. E o que entendemos por símbolo?

       Na perspectiva junguiana, segundo Kast (2010, p. 90), “os símbolos constituem a linguagem da alma. São mensagens que apontam para necessidades que precisam ser solucionadas ou para as quais o sonho já traz uma possibilidade de solução”. Porém, os símbolos oníricos apontam para potenciais não vividos, imprescindíveis para o processo de individuação. Uma imagem é simbólica quando indica algo além do seu sentido imediato ou óbvio, adquirindo um aspecto desconhecido, que nunca será totalmente explicado ou definido, mas é a melhor representação possível para a psique se manifestar (Jung, 1961). O símbolo onírico está além de qualquer determinação, tem a propriedade excepcional de sintetizar as influências do inconsciente e da consciência, bem como as forças instintivas e espirituais, em conflito ou em vias de se harmonizar no interior de cada pessoa.
      
         É preciso usar a intuição para lidar com o símbolo de um sonho, pois ao ser interpretado, deve-se inspirar não apenas na figura onírica, mas no seu movimento, no meio cultural do sonhador e em seu papel particular, no aqui-e-agora. Devemos tentar encontrar a sua matriz, seu código próprio e seu denominador comum, por exemplo, nem particularizando nem generalizando em demasia, evitando sempre racionalizar. A forma clássica de abordar os sonhos, defendida por Jung, consiste em inicialmente ouvir o sonho com precisão e estabelecer o seu contexto subjetivo, através da coleta de todas as associações livres que surgem em relação aos elementos oníricos. Mas, usa-se também da imaginação ativa para vivificar as imagens oníricas.

          A imaginação ativa é uma técnica desenvolvida por Jung que toma como ponto de partida uma imagem de sonho ou fantasia, e a partir daí é solicitado que o cliente desenvolva livremente o tema trazido pela imagem, dialogando com ela no “como se”, dramatizando, escrevendo, pintando, etc. Assim, conjugando imagem e ação, promove o desdobramento do processo inconsciente, a confrontação com imagens inconscientes, para que estas possam ser compreendidas.
       
          Quando os sonhos se expressam simbolicamente, e não surgem associações livres da parte do sonhador, recorre-se, além da imaginação ativa, à técnica junguiana da amplificação. Nesta, amplificam-se os motivos dos sonhos, procurando-se relacioná-los, compará-los, levantar paralelos e analogias com um material simbólico mais amplo: extraído da mitologia, da história das religiões, dos contos de fadas, etc. Por esta razão, Jung propunha aos seus pacientes registrar cuidadosamente por escrito os seus sonhos, logo ao acordar. Para o trabalho com as imagens oníricas, não só propunha um trabalho dialético verbal, como também solicitava a imaginação ativa (que o paciente pintasse, desenhasse, fizesse colagens, visualização interna dirigida, quando poderia dialogar e vivenciar melhor as imagens oníricas), como já citamos anteriormente.

Enfim, na abordagem junguiana da interpretação dos sonhos existem três etapas principais: 1) uma compreensão clara dos detalhes exatos do sonho, valorizando a série deles; 2) a reunião de associações e amplificações em ordem progressiva, a nível pessoal, cultural e arquetípico; 3) a colocação do sonho ampliado no contexto da situação vital e do processo de individuação do sonhador (HALL, 1987, p.43).

           Pois, muitas vezes, após a análise de uma série de sonhos, é possível ao terapeuta e ao seu cliente apenas esperar, vigiar e confiar. O terapeuta deve tomar cuidado para não cair na tentação interpretativa, pois ao serem analisados sonhos, não são utilizados termos ou conceitos teóricos com o cliente, corre-se o grave risco de privilegiar a compreensão intelectual, mais do que o insight emocional e afetivo. Enfim, “os sonhos e as imagens oníricas são mais complexos que os conceitos (...). O sonho é mais sutil do que qualquer modelo teórico da psique, que não deve ser tratada de modo redutivo” (HALL, 1987, p.92 e 83).

Bibliografia:

GALBACH, Marion. Aprendendo com os Sonhos. São Paulo, Paulus, 2000.
 HALL, James. Jung e a Interpretação dos Sonhos – manual de teoria e prática. São Paulo, Cultrix, 1987.
JUNG, Carl Gustav. Freud e a Psicanálise. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth. Petrópolis: Vozes, 1998, 3ª edição, volume IV das Obras Completas.
JUNG, Carl Gustav.  Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. C. W. vol.XVI/2, Petrópolis, Vozes, 4ª ed., 1999.
_______________. A prática da Psicoterapia. C. W. Vol. XVI, Petrópolis, Vozes, 1995.
_______________. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1964.
KAST, Verena. Sonhos, a linguagem enigmática do inconsciente. São Paulo, Ed. Vozes, 2006.
NOVAES, Adenáuer. Sonhos, mensagens da alma. S
alvador, Fundação Lar Harmonia, 2005.
ROBERTSON, Robert. Guia prático da Psicologia Junguiana. São Paulo, Cultrix, 1992.
SALLES, Carlos Alberto C. Somos feitos da matéria dos sonhos. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1998.
STEIN, Murray. Jung, o mapa da alma. São Paulo, Cultrix, 1998.
VON FRANZ, Marie Louise. Psicoterapia. São Paulo, Coleção Amor e Psiquê, Paulus, 1999. 
_________. C. G. Jung seu mito em nossa época. São Paulo: Cutrix, 1997.
VON FRANZ, M. L. & BOA, Frazer.  O caminho dos sonhos. São Paulo, Ed. Cultrix, 2007.

Artigo escrito por Cybele Ramalho - CRP (19/300), Psicóloga, Psicoterapeuta Junguiana, Psicodramatista e Diretora Técnica da PROFINT - Profissionais Integrados.

Artigo I


A JORNADA DO HERÓI: um caminho de crescimento em busca da Individuação.
Cybele Maria Rabelo Ramalho
              
          Já dizia o grande gênio Michelângelo, que suas estátuas magníficas (La Pietá e Davi) já estavam dentro do mármore, cabendo a ele apenas a tarefa de retirá-las de lá. Assim, também temos em nós não uma essência definida, mas o potencial criativo que pode nos construir e tornar seres singulares. À medida que crescemos, aprendemos a diferenciar o Eu do não-Eu e experimentamos o nascimento do Ego e o desenvolvimento da nossa consciência. Vamos com o tempo nos separando do senso de Unicidade com tudo e com o Todo, da fase inicial, e vamos adquirindo uma maior identificação com o Ego, desempenhando nossos papéis, construindo uma Persona. Mas, permanecem forças interiores desconhecidas (Sombras), se transformando e fervilhando, principalmente quando atingimos a fase da Metanóia, ou a meia-idade. Nesta fase de transformação, acontece uma centroversão, quando o centro da Consciência deixa de ser o Ego e tende a se voltar, lentamente, para o Self, na busca da auto-realização maior. Aí o processo de Individuação (que vem do latim individus e significa indiviso, inteiro ou não fragmentado), geralmente se acelera.
       Segundo Carl Gustav Jung, o processo de Individuação é teleológico, voltado para a construção de um sentido para a vida. Este processo foi estudado e definido também em termos similares por outros estudiosos humanistas, tais como Maslow, Carl Rogers, Fritz Perls, Alfred Adler, assim como por filósofos antigos (Tomás de Aquino, Aristóleles e Schopenhauer, entre muitos). Por outro lado, segundo BREHONY (1999, p. 34) “o mundo antigo está repleto de imagens, mitos, contos de fada, poesia e orações que esboçam o caminho em espiral até o Si-Mesmo. Os índios navajo chamavam a Jornada de ‘caminho do pólen’, os sioux o denominavam de’ boa estrada vermelha’ e os chineses chamam simplesmente TAO”.
       Mas, na vida cotidiana, ninguém realmente “individua” totalmente, torna-se completamente inteiro, realizado ou consciente do seu Self. O valor do processo está, antes, naquilo que acontece ao longo do caminho – é a própria trajetória, trilha ou Jornada que é o destino, que deve ser contemplada ativa e conscientemente. A meta só é importante como idéia, o essencial é o processo. Este nos leva naturalmente a uma abertura e sabedoria interior, embora a trajetória não seja fácil, pois envolve a luta com “nossos dragões”, como na Jornada Heróica.
        Segundo MULLER (1997, p.12), na jornada do herói a mudança e amadurecimento estão ligados à experiência do “morrer e retornar”. Para o ser humano, “isto significa o processo de Individuação, através do qual penetramos em nossas próprias profundezas anímicas desconhecidas, vivendo a experiência da morte de valores e posicionamentos antigos e estéreis, retornando depois de um processo de reordenação, com uma atitude mais saudável em relação a nós mesmos e à vida”. Complementa este autor que o herói substitui o ser humano exemplar, que se esforça por uma renovação social, pelo domínio criativo da vida e pela ampliação da consciência. Estar a caminho do SELF é a meta do herói humano, embora só possa “circundar” este Si-Mesmo, sem jamais concretizá-lo ou realizá-lo por completo. Assim, o herói se encontra numa eterna peregrinação, numa procura ininterrupta da vida criativa, travando sempre “novas lutas com o dragão”, de modo que todo ato através do qual transformamos a nós mesmos e ao nosso meio, com criatividade, pode ser considerado um ato heróico.    
        Tal como na maioria das histórias dos heróis da Mitologia, cada um de nós traz dentro de si uma “criança ferida” que sofreu, em maior ou menor grau, com sentimentos de impotência, humilhação e insignificância diante dos adultos, tendo de reprimir o medo, a ira legítima e a profunda aflição que sentimos. Tal como nos heróis míticos, tivemos feridas infantis que precisamos tratar, ultrapassar, superar. Portanto, segundo MULLER (1997, p.30), “quem se lançar na viagem do herói deve se ocupar, inevitavelmente e de maneira afetuosa, com a criança abandonada e humilhada dentro de si. Deve se confrontar com o medo, a aflição e a impotência da sua primeira infância, para que a sua força de vontade, sua franqueza e alegria de viver possam despertar outra vez”. Assim, não podemos continuar fixados na postura de culpar nossos pais, sem assumir a responsabilidade pela própria vida, possibilitando assim a “criança ferida” ser substituída pela “criança divina”, capaz de resgatar sua força criativa. J. L. Moreno diria que seria resgatar a centelha divina da espontaneidade-criatividade.
    A aventura do herói nas Mitologias e nos contos de fadas começa, em geral, com alguém de quem se tomou alguma coisa, ou que sente que falta “algo”, de modo que entra em “crise”. Ela é chamada para partir para uma série de aventuras (internas e/ou externas) ou desafios fora do comum, para recuperar o que foi perdido, ou para descobrir algo novo. Sua jornada inicia-se com uma separação, um chamamento ao novo e acaba quando “mata seus dragões” e retorna ao seu reino, enriquecida. 
    No caminho da jornada, o herói encontra forças extraordinárias e obtém uma vitória decisiva, adquirindo a sabedoria e o poder de conceder benefícios aos seus semelhantes. Em todas as culturas o Mito do herói apresenta esta mesma estrutura básica, de modo que ele se constitui num “monomito”, uma amplificação da fórmula apresentada nos rituais de passagem. Temos como exemplos: Prometeu roubando o fogo dos deuses; Psiquê realizando as tarefas exigidas por Afrodite para poder se unir a Eros, seu amado; a subida e a descida de Inana às profundezas do mundo inferior, etc.
      No caminho da Jornada do herói ele tem, geralmente, de enfrentar como adversário sua própria Sombra (que aparece nas histórias mitológicas como um inimigo igualmente forte). Ao se familiarizar com suas sombras, retirando as projeções negativas dirigidas aos semelhantes, o herói vai reconhecendo suas próprias limitações, seu próprio mal, sua ânsia de poder, megalomania e onipotência, que o faziam sentir-se com um Ego-inflado. Também na maioria das histórias de heróis da Mitologia, antes da luta com o dragão propriamente dita, eles têm de realizar “trabalhos preliminares” para demonstrar competência, a maioria dos quais enfrentando monstros e animais perigosos (como é exemplo o herói Hércules, em seus 12 trabalhos). Enfrentar estes animais é como dar os primeiros passos no ritual de iniciação, ao se abrir para o mundo obscuro do Inconsciente. Eles representam, simbolicamente, os medos e com emoções ameaçadoras que precisam ser reconhecidos e domados para o indivíduo recuperar sua “força animal”.
      Segundo MULLER (1997, p. 67), “aprender a lidar com o medo diante da nossa realidade psíquica é por isso um dos trabalhos preliminares necessários no processo de Individuação”. Esta “força animal” significa uma totalidade instintiva original perdida, que deve ser resgatada para recuperarmos e entendermos nossa “psique animal”, dando-lhe espaço para cumprir sua função. No entanto, segundo este autor, “para um Ego pouco desenvolvido, o contato com os impulsos e afetos do nosso organismo é realmente muito ameaçador. Tem-se sempre o receio de ser possuído por eles e sucumbir a eles (...). A solução mais próxima é suprimir o corpo com seus afetos, tentações e desejos. Contudo, assim também se restringe, ao mesmo tempo, a vivacidade espiritual e física” (Ibidem, p.67). Assim, devemos estabelecer uma relação amigável e positiva com nossos instintos, resgatando sua sabedoria.
         Do nascimento até a morte, todo ser humano está sempre executando diversas vezes o Mito do herói e lutas com dragões. Como vimos no item anterior, no início do desenvolvimento infantil a criança tem de dominar forças inquietantes e desesperadoras às quais teme, sentimentos ambivalentes em relação aos pais, vencendo o dragão do medo com seus próprios recursos. A cada situação nova e desconhecida teme fracassar, necessitando que tais medos sejam admitidos e penetrados com objetividade. Assim, o objetivo é integrar o essencial daquilo que nos provocou medo, para atingirmos uma consciência ampliada, através da força criativa latente do dragão. Não é por acaso que na China, na Índia e no Japão o dragão simboliza a fertilidade e a força criativa, a felicidade, a sabedoria e a longevidade.
       Em busca do auto-conhecimento, o herói deve se desligar das fixações e dependências da infância, questionar normas e valores sociais dominantes, assumindo uma posição singular. Mas, o dragão maior a ser enfrentado é, sem dúvida, o da morte. É só descendo ao “reino das trevas” (ao Hades, ao Inferno), que ele se torna um verdadeiro herói, experimentando um segundo nascimento, e encontrando a “preciosidade de difícil acesso”. O contato com a morte representa o encontro com a própria incorporeidade, impotência, fragilidade e transitoriedade da existência, o contato com as profundezas do inconsciente. Este contato provoca uma sensação de vazio, de insegurança, de falta de sentido, de vergonha e medo, o que leva à experiência da morte simbólica do Ego. O confronto com a mortalidade liberta o Ego de suas ilusões, inflações e culpas, constituindo-o como instância criativa. A “descida” então proporciona uma “elevação”, uma redenção do Self, um renascimento. Finalmente, o herói “liberta a cativa” no final da sua Jornada e encontra sua feminilidade, restabelecendo um relacionamento criativo com seu lado feminino perdido (sua Anima). Por outro lado, para a mulher, a jornada do herói culmina com a recuperação / superação do medo da autonomia e da auto determinação, “da dissolução do relacionamento de identidade com a mãe e com o encontro da própria identidade feminina” (MULLER, 1997, p. 118). Assim, elas também poderão despertar seu lado masculino inconsciente (Animus), libertando suas forças criativas.
       Segundo Nise da Silveira (2000) “se, por intermédio do trabalho analítico, os processos inconscientes chegarem a ser confrontados e o Ego despojar-se da identificação com a imagem arquetípica do herói, abre-se a possibilidade para a síntese de elementos de conhecimento e de ação, do consciente e do inconsciente. Isto por sua vez conduz ao deslocamento do centro da personalidade do Ego para o Self” (SILVEIRA, 2000, p.117).
         Assim, cada jornada heróica é única e a transformação do “reino”, no retorno, na “subida”, depende de cada um. Os heróis representam arquétipos, maneiras de ser, pensar e agir durante a jornada. A analista junguiana Carol Pearson (1999) em sua obra “O despertar do Herói Interior”, identificou doze imagens arquetípicas que são fundamentais para esta jornada, em suas características positivas e negativas, que contribuem para a trajetória do processo de Individuação. Segundo a autora, neste processo ao longo da vida podemos ativar ou constelar estes doze arquétipos básicos diversas vezes, que evoluem de níveis mais superficiais até níveis mais elevados ou profundos de desenvolvimento, se manifestando em nossas vidas de modo cíclico e em espiral. A busca eterna do processo de Individuação é possibilitar a emergência de níveis arquetípicos mais evoluídos e positivos, que facilitem a realização do Self, integrando aspectos conscientes e inconscientes, com o advento da função transcendente. Se alcançarmos este estágio, a fase do “heroísmo” é ultrapassada e alcançamos o estágio da Transformação, porque o indivíduo aprende a “dançar com a vida”, as dualidades começam a desaparecer, ele não vive mais na unilateralidade da consciência. Aflora um contato maior com o cosmo, com a coletividade e emerge uma verdadeira alegria, liberdade e autenticidade no viver.
       Segundo PEARSON (1999) a Jornada do Herói Interior obedece basicamente a três estágios: 1) a preparação – cujo objetivo é a busca do desenvolvimento do Ego, que em geral predomina da infância ao início da vida adulta, num processo de auto-afirmação. Os arquétipos ou heróis predominantes deste estágio são o Inocente, o Órfão, o Caridoso e o Guerreiro; 2) a jornada propriamente dita – cujo objetivo é a busca da transformação, do encontro com nossas verdades conscientes e inconscientes. Deixamos a acomodação e os pegos à Persona e embarcamos numa luta solitária, onde encontramos “dragões” (a nossa Sombra, Anima/Animus, metamorfoses, etc.). Os arquétipos ou heróis predominantes são o Explorador (ou Nômade), o Destruidor, o Amante e o Criador; 3) o retorno – é o processo decorrente do “encontro” com o Self, quando nos tornamos mais conscientes do nosso potencial e singularidade, colocando-o em prática em benefício de nós mesmos e da coletividade. São predominantes deste estágio os heróis ou arquétipos do Governante, do Mago, do Sábio e do Bobo.
     O mito do herói, segundo Joseph Campbell (1977), se constela no Inconsciente Coletivo em todas as situações de opressão, com suas “mil faces”, podendo fazer emergir coletivamente o líder Salvador (a exemplo de Jesus Cristo), o Libertador, o Tirano e o Estrategista. Se o Libertador permanece e continua investido no poder que lhe confere o mito, ocorre o fenômeno da “enantiodromia”, que o transforma no seu oposto, o Tirano. Segundo Jung, este fenômeno da enantiodromia, descrito por Heráclito, define que tudo “pode correr em direção contrária”. Só escapa à lei da enantiodromia quem é capaz de diferenciar-se do Inconsciente coletivo, não através da repressão deste, mas colocando-se à sua frente, como algo diferenciado, distinto.
         Quando um indivíduo se identifica com o mito, de forma inconsciente, ocorre a impregnação e o processo segue seu enredo e roteiro. Assim, se a psique individual ficar impregnada pelos conteúdos do Inconsciente Coletivo poderá trazer conseqüências nocivas para si e para o seu grupo social. É preciso, então, alcançar a função transcendente, conhecer a origem das coisas, inclusive a origem dos mitos que constelamos nos papéis que desempenhamos ao longo da vida.

R E F E R Ê N C I A S      B I B L I O G R Á F I C A S
BREHONY, Kathleen. Despertando na Meia-Idade”, São Paulo. Ed. Paulus, 1999.
do Pós-Modernismo para a Psicoterapia”, 
CAMPBELL, Joseph. “O Herói de Mil Faces”, São Paulo, Cultrix, 1997.
                JUNG, C. G. "Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo", C.W., vol. IX/2,
                 Petrópolis, Vozes, 1982.
MARONI, Amneris. “Jung, Individuação e Coletividade”. São Paulo, Ed. Moderna, Col. Logus, 1999.
MULLER, Lutz  - “O Herói – todos nascemos para ser heróis”. São Paulo, Ed. Cultrix, 1997.
PEARSON, Carol. “A Jornada do Herói Interior”. São Paulo,  Ed. Pensamento, 1999.
STEIN, Murray. “Jung, o Mapa da Alma”.São Paulo, Cultrix, 1998.
SILVEIRA, Nise da. “Imagens do Inconsciente”, Rio. Ed. Alhambra, 1981.
________________, “Jung - Vida e Obra”, Rio de Janeiro, Paz e terra, 2000.



 Artigo escrito por Cybele Ramalho - CRP (19/300), Psicóloga, Psicoterapeuta Junguiana, Psicodramatista e Diretora Técnica da PROFINT - Profissionais Integrados.